Pesquisa gaúcha sobre comunidade autista revela que 75% vivem com até um salário mínimo no RS
Estudo da FADERS cruza dados inéditos e mostra avanços, desigualdades e desafios na inclusão.
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Pesquisa gaúcha sobre comunidade autista revela que 75% vivem com até um salário mínimo no RS
Estudo da FADERS cruza dados inéditos e mostra avanços, desigualdades e desafios na inclusão.
Às vésperas do Dia Mundial de Conscientização do Autismo, celebrado em 02 de abril, a FADERS Acessibilidade e Inclusão divulga a 5ª edição da Pesquisa sobre as características da população com Transtorno do Espectro Autista (TEA) no Rio Grande do Sul. O estudo traz um retrato aprofundado e inédito sobre a realidade das pessoas autistas no estado, reforçando a importância de dados qualificados para a construção de políticas públicas mais eficazes.
Intitulada “Diagnóstico populacional e gestão pública: o impacto dos indicadores da CIPTEA na inclusão social”, a pesquisa foi realizada pela Coordenação de Pesquisa da FADERS, instituição vinculada a Secretaria de Desenvolvimento Social do RS,
Com base em 47.335 registros da CIPTEA (Carteira de Identificação da Pessoa com Espectro Autista), coletados entre junho de 2021 e março de 2026, o estudo consolida o maior banco de dados já estruturado no estado.
Mas mais do que volume, o que chama atenção são os dados que emergem dessa análise: avanços no diagnóstico, desigualdades socioeconômicas e lacunas no acesso a direitos.
E nesta edição, um marco: o cruzamento com o Censo 2022 do IBGE, que estimou 124.245 pessoas com autismo no estado, permitindo dimensionar o alcance real da política pública.
“Diferentemente das estimativas censitárias, embasadas na autodeclaração domiciliar, cada um dos registros estaduais é chancelado por atestado clínico obrigatório. Isso consolida a FADERS como gestora de uma das bases de dados clinicamente validadas mais robustas do país”, enfatiza a Coordenadora de Pesquisa da Faders, Aline Monteiro.
Ao cruzar os dados da Pesquisa da Faders com o Censo do IBG 2022 é possível identificar: 47.335 pessoas com CIPTEA emitidas. Isso significa que o Estado já identificou 38% da população autista na 5ª edição da pesquisa.
Além disso: a carteira está presente em 492 dos 497 municípios gaúchos (99% de cobertura), revelando m avanço significativo na identificação e também um alerta para impulsionar campanhas de conscientização uma vez que 62% desta população ainda não tem a CIPTEA.
Desigualdade social: maioria vive com baixa renda
Um dos dados mais impactantes da pesquisa segue sendo a renda: 75% dos pesquisados vivem com até 1 salário mínimo per capita e 52,59% sobrevivem com até meio salário mínimo. Destes 27,90% (13.207 pessoas): entre 1/4 e 1/2 salário mínimo e 24,69% (11.686 pessoas): até 1/4 do salário mínimo.
Ou seja: mais da metade da população autista documentada vive em situação de alta vulnerabilidade.
Proteção social: acesso ainda não acompanha a necessidade
Entre os pesquisados, 52,08% (24.654 pessoas) estão no Cadastro Único e somente 15,89% (7.522 pessoas) recebem o BPC ( Benefício de Prestação Continuada), chamando atenção uma vez que 24,69% têm renda compatível com subsídio.
Passe Livre: tecnologia aumenta acesso
Apenas 9,80% dos pesquisados (4.640 pessoas) possuem Passe Livre Intermunicipal. Aqui outro ponto que chama atenção: após a unificação digital dos sistemas em 2025, a adesão subiu para 25% entre novos usuários. Isso comprova que a desburocratização promovida pelo Estado atua como um facilitador imediato da cidadania.
Quem são as pessoas com TEA no RS
Predominância masculina com 69,70%, mas mulheres avançam no diagnóstico: em 2024 as mulheres representavam 24,79%; em 2025: 27,48% e agora em 2026: 30,12%, ainda 0,19% se identificam como outros.
Um crescimento de mais de cinco pontos percentuais em dois anos, indicando a redução do subdiagnóstico feminino e maior reconhecimento de casos antes invisibilizados.
Identidade de gênero: avanço pioneiro
Com anova base digital de dados (4.891 registros), a Faders identificou um dado inédito, fruto do aprimoramento do formulário e que permite pensar políticas específicas para população autista LGBTQIAPN+ : segundo as respostas os usuários se auto declararam 47,05% homens cis, 30,40% mulheres cis , 1,74% pessoas trans e não binárias, 17,75% não informaram.
Raça: perfil acompanha demografia do estado
A distribuição segue o perfil populacional do RS: 79,80% se autodeclaram brancos, 12,86% pardos e 5,62% pretos
Idade: diagnóstico precoce cresce, mas adultos aparecem mais
Diagnóstico na infância ainda é maioria:57,36% diagnosticados até os 5 anos (destes 35,49% entre 2 e 3 anos e 16,37% entre 4 e 5 anos).
Mas adultos estão crescendo na base:diagnóstico após 16 anos subiram de 13,44% em 2025 para 18,25 em 2026. Destacando que de 16 a 18 anos saltou de 2,39% do anterior, para 6,36% este ano.
Números mostram mais diagnósticos tardios, comprovando como a comunidade está buscando por direitos na vida adulta e apontando a necessidade de readequação das linhas de cuidado, que historicamente focam na primeira infância.
Faixa etária atual: concentração absoluta de registros permanece nas faixa etárias da primeira infância, com crianças de 2 a 3 anos sendo 18,75% e de 4 a 5 anos: 18,80%, ou seja: juntos somam: 37,55% .
O diferencial analítico desta 5ª edição encontra-se na variação da população adulta que acessou a carteira. Ao confrontar os dados atuais com os resultados do relatório de 2025, constata-se uma mudança proporcional na base: o grupo de pessoas a partir de 19 anos obteve um crescimento expressivo. A proporção de indivíduos cadastrados a partir dessa idade subiu de 14,98% (na edição de 2025) para 18,74% no atual ciclo.
Saúde: dependência do SUS é maioria
Das pessoas que possuem a Ciptea: 56,95% não têm plano de saúde, versus 43,05% que possuem, ou seja: com quase seis em cada dez cadastrados dependendo exclusivamente da rede pública.
Mesmo assim a maioria tem acompanhamento multidisciplinar: 71,56%, e ainda 11,41% com uma especialidade e 17,02% sem atendimento.
Os acompanhamentos são principalmente nas seguintes áreas: Psicologia: 59,45%, Neurologia: 57,43%, Fonoaudiologia: 45,45% e Terapia Ocupacional: 39,87% .
Ao pesquisar a relação do TEA e outras deficiências, foi detectado que 81,12% têm apenas TEA e 18,88% possuem alguma deficiência associada. Entre estes: 14,76% com uma deficiência adicional e 4,12% com múltiplas.
Desigualdades regionais
A análise regionalizada, com base na divisão dos Conselhos Regionais de Desenvolvimento (COREDES), permite identificar a proporção de registros da CIPTEA em relação aos números levantados pelo IBGE para cada região. A Região Metropolitana do Delta do Jacuí mantém a liderança correspondendo a 41% da estimativa populacional com autismo do Censo para o território.
Proporcionalmente, destacam-se os COREDES Sul e Litoral, que já emitiram carteiras para, respectivamente, 48% e 47% das pessoas com TEA mapeadas pelo IBGE em suas regiões, revelando um alto grau de engajamento da rede local de apoio.
Cidades com alta eficiência:
Para avaliar a eficiência nos centros de maior densidade, aplicou-se a metodologia de ranking combinado, cruzando o volume absoluto de emissões com a proporção de cobertura em relação ao Censo IBGE (focando em localidades com mais de 100 documentos emitidos para evitar vieses amostrais).
Nesse cenário macro, Rio Grande desponta como o principal destaque estadual. Com 1.745 CIPTEAs, a cidade alcança 65,73% de cobertura de sua população autista estimada. Outros polos que lideram a eficiência da política pública, equilibrando larga escala e alta cobertura percentual, incluem Canoas (2.202 registros; 48,53%), Cachoeira do Sul (468 registros; 67,05%), Viamão (1.599 registros; 48,62%) e Guaíba (612 registros; 54,99%). Destaca-se também Igrejinha, que atinge a maior taxa proporcional entre as cidades avaliadas (73,48%), sustentada por um volume robusto de 230 emissões.
Invisibilidade revelada
Em 17 municípios a CIPTEA supera 100% da estimativa do IBGE: São Pedro das Missões: 700%; Maximiliano de Almeida: 300% e Canudos do Vale: 200%
E há municípios onde o IBGE não registrou nenhum caso, e há CIPTEA. O que indica a necessidade urgente de busca ativa nestes municípios.
Os indicadores de escolarização e trabalho alertam para um afunilamento nas trajetórias de vida. Enquanto a inserção na Educação Básica é massiva, observa-se uma queda abrupta no Ensino Médio e Superior. No mercado de trabalho, a alta taxa de desocupação entre adultos e o baixo índice de ingressos amparados pela Lei de Cotas (apenas 10,19% dos empregados) evidenciam que a inclusão corporativa da população com TEA ainda é incipiente.
Conclusão
Os resultados revelam um cenário complexo: avanços importantes na identificação e no diagnóstico, especialmente entre mulheres e adultos, convivem com desafios estruturais como a alta vulnerabilidade socioeconômica, a dependência do SUS, as barreiras de acesso a benefícios e as desigualdades regionais.
Ao mesmo tempo, evidenciam caminhos concretos: a digitalização de processos como facilitadora do acesso a direitos, a importância da busca ativa em territórios ainda descobertos e a urgência de políticas públicas mais integradas, que acompanhem a pessoa com TEA ao longo de toda a vida, da infância à vida adulta.
Mais do que um retrato, a pesquisa estabelece uma linha de base sólida para o futuro acompanhamento longitudinal dessa população, inaugurando uma nova fase na gestão pública baseada em evidências.
“O pioneirismo da FADERS ao estruturar e qualificar esse banco de dados posiciona o Rio Grande do Sul como referência nacional no tema e reforça um princípio fundamental: não há inclusão real sem dados, e não há política pública eficaz sem diagnóstico preciso da realidade”, reforça o presidente da Faders, Marquinho Lang.
Acesse a pesquisa completa aqui:
5ª Edição CARACTERÍSTICAS DA POPULAÇÃO COM AUTISMO NO RIO GRANDE DO SUL (1) (.pdf 1,23 MBytes)
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